Anestesiologista do Provida explica sobre o dispositivo utilizado na Copa do Mundo por jogador que quebrou a perna e saiu sem dores do campo
Um pequeno dispositivo utilizado para aliviar rapidamente a dor de um jogador da seleção do Canadá, durante uma partida da Copa do Mundo, chamou a atenção do público e despertou dúvidas sobre sua utilização. O inalador contém o anestésico inalatório metoxiflurano em baixa dose. Um medicamento empregado em alguns países para o tratamento da dor aguda intensa, principalmente em situações de emergência fora do ambiente hospitalar.
“O metoxiflurano é um analgésico inalatório volátil utilizado em doses muito baixas. O paciente inspira o medicamento por meio de um pequeno inalador portátil, controlando a intensidade da analgesia conforme sua necessidade. Chamamos esse conceito de analgesia autoadministrada supervisionada, que age entre três e cinco minutos após o início da inalação, reduzindo significativamente dores de forte intensidade, especialmente em casos de traumas”, explica anestesiologista, especialista em Terapia da Dor, do Complexo Médico Provida e da Narco Clínica, Dr. Diego Fabris (CRM 15165 RQE 11565) .
Embora tenha ganho notoriedade recentemente nos primeiros jogos da Copa do Mundo, o metoxiflurano não é uma novidade na medicina.
O anestesiologista explica que a substância foi sintetizada na década de 1950 e chegou a ser utilizada como anestésico geral nas décadas seguintes. Entretanto, o uso foi praticamente abandonado em diversos países devido aos casos de insuficiência renal observados quando administrado em altas doses ou por períodos prolongados.
“Posteriormente, estudos demonstraram que doses extremamente baixas, cerca de dez vezes menores do que as utilizadas para anestesia, não produzem lesão renal. Isso possibilitou o desenvolvimento do inalador portátil atualmente utilizado para analgesia em alguns países”, destaca o médico.
Assim como qualquer medicamento, o metoxiflurano também pode provocar efeitos adversos, embora seja considerado bastante seguro quando utilizado nas doses analgésicas recomendadas. Entre os efeitos mais comuns estão tontura, sonolência leve, sensação de relaxamento, discreta euforia, náuseas e gosto ou odor desagradável. Uma característica considerada positiva é que o próprio paciente regula a quantidade do medicamento que inala.
“Se houver sensação de sedação excessiva ou qualquer desconforto, naturalmente a pessoa reduz a frequência das inspirações, diminuindo automaticamente a administração do medicamento. Além disso, sua eliminação é rápida após a interrupção da inalação, permite recuperação em pouco tempo”, destaca.
Apesar da facilidade de uso, existem contraindicações importantes, como insuficiência renal, histórico de toxicidade pelo metoxiflurano, hipertermia maligna, alterações importantes do nível de consciência e instabilidade hemodinâmica grave. Por isso, o especialista reforça que sua utilização deve ocorrer sempre sob supervisão de profissionais treinados.
Não é comercializado no Brasil
“Atualmente, o metoxiflurano inalatório não possui registro sanitário ativo para comercialização rotineira no Brasil. Isso não significa que ele seja ineficaz ou inseguro. Para que um medicamento seja comercializado no país, o fabricante precisa solicitar registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, demonstrando interesse econômico em disponibilizar o produto no mercado brasileiro”, explica o Dr. Diego.
Alternativas para conter a dor
Mesmo sem o metoxiflurano, os anestesiologistas dispõem de diversas opções para controlar a dor e realizar anestesias com segurança. Na anestesia geral, são amplamente utilizados anestésicos inalatórios como isoflurano e sevoflurano, além de agentes intravenosos como o propofol. Já para controlar a dor, a escolha depende da gravidade da lesão e das condições clínicas do paciente.
“Dispomos de analgésicos intravenosos, anti-inflamatórios, opioides, além de técnicas como bloqueios anestésicos e, em ambiente hospitalar, o uso de escetamina em baixas doses. Atualmente, utilizamos estratégias de analgesia multimodal, combinando diferentes medicamentos e técnicas para oferecer maior eficácia e reduzir os efeitos colaterais”, completa.